quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Meu amor



De ti somente um nome sei, Amor,
É pouco, é muito pouco e é bastante
Para que esta paixão doida e constante
Dia após dia cresça com vigor!

Como de um sonho vago e sem fervor
Nasce assim uma paixão tão inquietante!
Meu doido coração triste e amante
Como tu buscas o ideal na dor!

Isso era só quimera, fantasia,
Mágoa de sonho que se esvai num dia,
Perfume leve dum rosal do céu...

Paixão ardente, louca isto é agora,
Vulcão que vai crescendo hora por hora...
O meu amor, que imenso amor o meu!

Florbela Espanca

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

CORAÇÃO

Tenho um coração
saltando boca a fora.
Uma emoção
que saltitante não tem hora.
Uma lucidez
metálica
repleta de um lirismo
denso.

Meu coração arcaico
coagido
é modernidade.
No verso,
uma metáfora cansada
já virando metonímia
desapercebida
pela rotineira pulsação.

Coração que não tem pressa
pra se decompor
enquanto se compõe
qual uma orquestra de instantes.

Estática prisão de sensações
inviolável
de instável que é.

E peito a dentro,
é só o centro
de uma vida que cansa.

Tímido, recolhido,
cumpre tão somente
o seu dever, pulsando,
de me manter em verso
a vida repensando.

Paulo Franco

Porque foges?


Paro em cima de uma linha
Imóvel divisa sem nexo
E espero que aconteça
O que não espero

Sinto tua falta
Como sinto falta d'água
Como sinto tua falta...!

E em outros braços
Me deixo levar
Sem sentir
Sem amar
Seja lá o que for
Este sentimento

E aprendo
Sim
Aprendo
O que já sabia
O que já sentia
Por ti

E busco palavras
Para expressar
E grito no vazio
Noite vazia
Madrugadas insones
A trabalhar para fugir
Do que não se pode fugir

Mas porque tu foges?
Porque não encaras teus medos?

Não sei
Só tu podes saber...

Alfredo Rebello

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

A Esperança

A Esperança não murcha, ela não cansa,
Também como ela não sucumbe a Crença.
Vão-se sonhos nas asas da Descrença,
Voltam sonhos nas asas da Esperança.

Muita gente infeliz assim não pensa;
No entanto o mundo é uma ilusão completa,
E não é a Esperança por sentença
Este laço que ao mundo nos manieta?

Mocidade, portanto, ergue o teu grito,
Sirva-te a crença de fanal bendito,
Salve-te a glória no futuro - avança!

E eu, que vivo atrelado ao desalento,
Também espero o fim do meu tormento,
Na voz da morte a me bradar: descansa!

Augusto dos Anjos

domingo, 30 de agosto de 2009

O rio


Da mata no seio umbroso,
No verde seio da serra,
Nasce o rio generoso,
Que é a providência da terra.

Nasce humilde; e, pequenino,
Foge ao sol abrasador;
É um fio d'água, tão fino,
Que desliza sem rumor.

Entre as pedras se insinua,
Ganha corpo, abre caminho,
Já canta, já tumultua,
Num alegre borburinho.

Agora ao sol, que o prateia,
Todo se entrega, a sorrir;
Avança, as rochas ladeia,
Some-se, torna a surgir.

Recebe outras águas, desce
As encostas de uma em uma,
Engrossa as vagas, e cresce,
Galga os penedos, e espuma.

Agora, indômito e ousado,
Transpõe furnas e grotões,
Vence abismos, despenhado
Em saltos e cachoeirões.

E corre, galopa, cheio
De força; de vaga em vaga,
Chega ao vale, alarga o seio,
Cava a terra, o campo alaga . . .

Expande-se, abre-se, ingente,
Por cem léguas, a cantar,
Até que cai finalmente,
No seio vasto do mar . . .

Mas na triunfal majestade
Dessa marcha vitoriosa,
Quanto amor, quanta bondade
Na sua alma generosa!

A cada passo que dava
O nobre rio, feliz
Mais uma árvore criava,
Dando vida a uma raiz.

Quantas dádivas e quantas
Esmolas pelos caminhos!
Matava a sede das plantas
E a sede dos passarinhos . . .

Fonte de força e fartura,
Foi bem, foi saúde e pão:
Dava às cidades frescura,
Fecundidade ao sertão . . .

E um nobre exemplo sadio
Nas suas águas se encerra;
Devemos ser como o rio,
Que é a providência da terra:

Bendito aquele que é forte,
E desconhece o rancor,
E, em vez de servir a morte,
Ama a vida, e serve o Amor!

Olavo Bilac